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O que todo estúdio de games deveria saber antes de assinar com uma publisher

  • Foto do escritor: pedrosirna83
    pedrosirna83
  • 22 de jul.
  • 4 min de leitura

Conseguir uma reunião com uma publisher já representa um grande avanço para um estúdio independente. Receber uma proposta de contrato, então, é um sinal de que o projeto despertou interesse comercial e pode alcançar mercados muito maiores.


Porém, é justamente nesse momento que a estrutura jurídica do estúdio se torna decisiva. O contrato de publishing pode impulsionar um jogo para o mercado global, mas também comprometer a rentabilidade do projeto, a autonomia do estúdio e até mesmo a exploração futura de sua propriedade intelectual (PI).


Isso porque, na prática, esse contrato vai muito além de definir quem será responsável por publicar o jogo. É ele que estabelece como as receitas serão distribuídas, quais direitos serão concedidos, quais obrigações cabem a cada parte e o que acontecerá se o projeto não for executado conforme o planejado.


Como a negociação costuma ocorrer em um momento de grande entusiasmo e, muitas vezes, de desequilíbrio de poder entre as partes, é comum que cláusulas desfavoráveis passem despercebidas e acabem gerando problemas difíceis de reverter.


Pensando nisso, reunimos alguns dos principais pontos que todo desenvolvedor deve analisar antes de assinar um contrato de publishing. Eles não substituem uma análise jurídica especializada, mas podem ajudar a identificar questões que merecem atenção durante a negociação, favorecendo decisões mais bem fundamentadas.


Um bom jogo merece um bom contrato
Um bom jogo merece um bom contrato

 

1. Entenda como você será remunerado


Nem toda divisão de receitas funciona da mesma forma. É comum encontrar contratos que utilizam conceitos como Qualified Revenue, Net Revenue e Reported Revenue. Embora pareçam apenas termos financeiros, pequenas diferenças na forma de cálculo podem representar uma redução significativa no valor que efetivamente chegará ao estúdio.


Em geral, Reported Revenue corresponde ao valor das vendas registrado e reportado pelas plataformas (como Steam, PlayStation Network ou App Store), enquanto Net Revenue representa o valor efetivamente recebido pela publisher após os descontos aplicados por essas plataformas e dos tributos incidentes sobre as vendas.


O Qualified Revenue, por sua vez, é a receita usada como base para a divisão dos royalties entre publisher e desenvolvedor, após as deduções previstas no contrato. Por isso, é fundamental verificar exatamente quais descontos são permitidos em cada etapa do cálculo.


Além disso, vale observar se o contrato prevê algum adiantamento (royalty advance), quando os royalties começam a ser pagos e com que frequência serão realizados os repasses (mensal, trimestral, semestral, etc.), de modo a evitar surpresas e garantir maior previsibilidade financeira ao estúdio ao longo de toda a parceria.


2. A propriedade intelectual continua sendo sua?


Essa talvez seja a cláusula mais importante de todo a negociação. Em contratos de publishing, o mais comum é que o desenvolvedor permaneça titular da propriedade intelectual do jogo e conceda apenas uma licença de exploração para a publisher.


O problema surge quando a licença é redigida de forma excessivamente ampla ou acaba transferindo direitos que o estúdio nem pretendia negociar. Uma boa regra prática é verificar se existe equilíbrio entre três elementos:


  • quais direitos de exploração da PI estão sendo concedidos à publisher;

  • por quanto tempo e em quais condições esses direitos poderão ser exercidos;

  • quais direitos permanecem exclusivamente com o desenvolvedor.


Além disso, se a publisher puder utilizar determinado ativo, como merchandising, personagens ou outros produtos derivados, faz sentido analisar se também haverá remuneração correspondente ao desenvolvedor.


3. Verifique exatamente o que a Publisher promete entregar


É comum que o estúdio assuma diversas obrigações no contrato, enquanto as responsabilidades da publisher fiquem descritas de maneira bastante genérica.

Marketing, campanhas para aquisição de novos jogadores (User Acquisition), participação em eventos, localização e portabilidade para novas plataformas  e campanhas de divulgação devem possuir obrigações minimamente definidas.


Quanto mais objetiva for essa divisão de responsabilidades, menor tende a ser o risco de futuras frustrações e conflitos.


4. Atenção às cláusulas de exclusividade


A exclusividade costuma fazer parte desse tipo de contrato e, muitas vezes, faz sentido para ambas as partes. O que merece cuidado é sua extensão.


Ela pode envolver plataformas/stores específicas, determinados territórios ou até impedir que o estúdio firme outras parcerias durante certo período.


Por isso, é importante compreender exatamente quais limitações estão sendo assumidas e se elas são proporcionais às contrapartidas oferecidas pela publisher.


5. Pense também no futuro da franquia


Algumas publishers passaram a incluir cláusulas relacionadas a sequências, expansões (DLCs), spin-offs e novos projetos baseados na mesma propriedade intelectual.


Nem sempre essas cláusulas são inadequadas, mas elas merecem uma análise cuidadosa, principalmente porque o primeiro contrato normalmente é negociado quando o desenvolvedor possui menor poder de barganha.


Uma decisão tomada hoje pode influenciar toda a exploração comercial da franquia pelos próximos anos, inclusive em futuros projetos.


6. Saiba como funciona a saída do contrato


Todo empreendedor entra em uma parceria esperando que ela seja um sucesso. Ainda assim, é fundamental entender como cada parte poderá encerrar a relação caso as expectativas não sejam atendidas.


Quem pode rescindir? Existe aviso prévio? O que acontece com o jogo após a rescisão? Onde eventuais litígios serão resolvidos? As respostas para essas perguntas podem ser tão importantes quanto as cláusulas financeiras.


7. Não assine apenas porque a proposta parece boa


É natural que receber uma oferta de uma publisher gere entusiasmo, principalmente para desenvolvedores iniciante e estúdios independentes.


Mas justamente nesse momento é importante manter uma análise técnica.


Em muitos casos, pequenas alterações na redação contratual são suficientes para reduzir riscos relevantes sem inviabilizar a negociação e evitar conflitos futuros.


Conclusão


Um bom contrato de publishing deve criar uma relação equilibrada entre desenvolvedor e publisher. O objetivo não é somente formalizar a parceria, mas garantir que ambas as partes saibam exatamente quais são seus direitos, obrigações e expectativas, de modo a criar uma base sólida para o desenvolvimento e a exploração comercial do jogo.


Cada projeto possui características próprias, e não existe uma cláusula "padrão" capaz de atender todos os casos. Aspectos como propriedade intelectual, divisão de receitas, marketing, exclusividade e rescisão devem ser analisados em conjunto, sempre considerando as particularidades do jogo e os objetivos do estúdio.


Se o seu estúdio está negociando um contrato com uma publisher, o Núcleo Legal Games pode auxiliar na análise jurídica da minuta, identificar cláusulas que merecem atenção e propor ajustes para tornar a negociação mais equilibrada, preservando os interesses do desenvolvedor sem comprometer a viabilidade da parceria.

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