top of page

Reconhecimento de união estável após a morte: como fica o direito do companheiro no inventário?

  • Foto do escritor: Leonardo Gutierrez Alves
    Leonardo Gutierrez Alves
  • 11 de mar.
  • 5 min de leitura

Por Leonardo Gutierrez Alves e Victor Hugo Lira Cartes


A união estável é uma realidade para milhões de brasileiros. Muitos casais vivem juntos por anos, compartilham despesas, constroem patrimônio e são reconhecidos socialmente como uma família, mas nunca formalizam a relação em cartório.

O problema surge quando um dos companheiros falece. Nesses casos, é comum que o companheiro sobrevivente enfrente dificuldades para ter seus direitos reconhecidos, principalmente quando a família do falecido não reconhece a relação.

Para garantir direitos sucessórios e previdenciários, pode ser necessário ingressar com uma ação de reconhecimento de união estável post mortem, ou seja, um processo judicial que busca comprovar a existência da união após o falecimento de um dos parceiros.

Neste artigo, você vai entender:

  • quando é possível reconhecer união estável após a morte

  • quais provas podem demonstrar a relação

  • quais direitos o companheiro sobrevivente pode ter

  • como funciona a divisão de bens

  • como evitar conflitos familiares e disputas judiciais


Reconhecimento de união estável após a morte

O que é união estável segundo a lei?


A união estável é reconhecida pela Constituição Federal como uma entidade familiar, nos termos do artigo 226, §3º.

O artigo 1.723 do Código Civil estabelece que ela se caracteriza pela convivência pública, contínua e duradoura, com o objetivo de constituição de família.

Isso significa que um casal pode ter direitos semelhantes aos do casamento mesmo sem realizar cerimônia ou registro formal.

A união estável é considerada uma situação de fato, ou seja, ela nasce naturalmente a partir da convivência entre duas pessoas, independentemente de formalização jurídica.

Entretanto, quando não há documentação formal, a comprovação da relação pode se tornar mais complexa, especialmente após o falecimento de um dos companheiros.

União estável após a morte


É possível reconhecer união estável após a morte?


Sim.

O reconhecimento judicial da união estável pode ocorrer mesmo após o falecimento de um dos companheiros. Esse processo é chamado de reconhecimento de união estável post mortem.

A ação normalmente é proposta pelo companheiro sobrevivente contra:

  • o espólio do falecido

  • ou os herdeiros

O objetivo é demonstrar ao juiz que existia uma relação familiar antes da morte.

Os tribunais brasileiros reconhecem esse direito quando há provas suficientes de que o casal mantinha convivência pública, contínua e duradoura com intenção de constituir família.

União estável após a morte


Quando é necessário reconhecer a união estável após a morte


Na prática jurídica, essa ação costuma surgir em três situações principais.


1. Participação no inventário

O reconhecimento da união estável pode garantir ao companheiro sobrevivente:

  • direito à meação

  • participação na herança

  • proteção patrimonial

Em muitos casos, o reconhecimento da união estável é necessário para que o companheiro possa participar do inventário e ter seus direitos patrimoniais respeitados.


2. Pensão por morte

O companheiro sobrevivente também pode ter direito a benefícios previdenciários, como a pensão por morte.

Para isso, muitas vezes é necessário comprovar que existia união estável no momento do falecimento.


3. Conflitos com familiares do falecido

Infelizmente, esse é um cenário bastante comum.

Quando não há documento formal, familiares podem negar a existência da relação, especialmente em situações que envolvem patrimônio.

Nesses casos, a comprovação judicial da união estável torna-se necessária para garantir os direitos do companheiro sobrevivente.

União estável após a morte


Qual é o regime de bens na união estável?

Um ponto importante diz respeito ao regime de bens aplicável à união estável.

De acordo com o artigo 1.725 do Código Civil, na ausência de contrato de convivência estabelecendo regras diferentes, aplica-se à união estável o regime da comunhão parcial de bens.

Isso significa que, mesmo no reconhecimento da união estável após a morte de um dos companheiros, os bens adquiridos onerosamente durante a convivência pertencem a ambos.

Assim, antes mesmo da divisão da herança entre os herdeiros, o companheiro sobrevivente tem direito à meação, ou seja, à metade dos bens adquiridos durante a união.

Somente depois de garantida a meação é que ocorre a divisão da herança entre os herdeiros.


Diferença entre meação e herança:

Esse é um ponto que gera muitas dúvidas.

Meação - Refere-se à divisão dos bens do casal em razão do regime de bens. Na comunhão parcial, o companheiro tem direito à metade dos bens adquiridos durante a união.

Herança - Refere-se à sucessão do patrimônio do falecido. Após a separação da meação, o restante dos bens é dividido entre os herdeiros.

Dependendo da situação familiar, o companheiro pode concorrer na herança com:

  • filhos

  • pais

  • outros herdeiros


Quais provas podem demonstrar a união estável?

Uma das maiores dificuldades desses processos é justamente a produção de provas.

Como muitas relações não são formalizadas, o juiz precisa analisar um conjunto de evidências que demonstre a existência da convivência.

Entre as provas mais utilizadas estão:

  • fotografias do casal em viagens ou eventos familiares

  • testemunhas, como amigos, familiares, vizinhos ou colegas de trabalho

  • contas e documentos em comum, como contas bancárias conjuntas, contratos de aluguel ou correspondências no mesmo endereço

  • dependência em plano de saúde ou imposto de renda

  • publicações em redes sociais que demonstrem a convivência pública

  • divisão de despesas e aquisição de bens em conjunto

Esses elementos ajudam o juiz a verificar se a relação possuía características de união estável.


Quanto tempo é necessário para caracterizar união estável?

Uma dúvida muito comum é sobre o tempo mínimo necessário para configurar união estável.

A legislação brasileira não estabelece um prazo mínimo de duração da relação.

Ou seja, não existe regra de dois, cinco ou dez anos.

O que realmente importa é a qualidade da relação, ou seja:

  • convivência pública

  • estabilidade

  • intenção de constituir família

Os tribunais analisam esses elementos para verificar se a união realmente existia.


O que pode impedir o reconhecimento da união estável

Apesar de ser possível reconhecer a união após a morte, existem situações que podem impedir esse reconhecimento.

Entre elas:


Relacionamento extraconjugal

A jurisprudência brasileira, em regra, não reconhece união estável quando a relação ocorre simultaneamente a um casamento que ainda não tenha sido dissolvido, salvo situações excepcionais como separação de fato.


Falta de convivência pública

Relacionamentos mantidos de forma totalmente secreta podem dificultar a comprovação da união.


Ausência de intenção de constituir família

Relacionamentos eventuais ou meros namoros não caracterizam união estável.


Onde deve ser proposta a ação?

Uma dúvida processual importante diz respeito à competência.

Segundo entendimento do Superior Tribunal de Justiça (STJ), a ação de reconhecimento de união estável post mortem deve tramitar no juízo do último domicílio do casal, salvo situações envolvendo filhos incapazes.

Isso ocorre porque a maior parte das provas, como testemunhas e documentos, costuma estar ligada ao local onde o casal vivia.

União estável após a morte


O que acontece se a união estável for reconhecida?

Se o juiz reconhecer a união estável, o companheiro sobrevivente passa a ter direitos relevantes.

Entre eles:


Direito à meação

Parte dos bens adquiridos durante a união pode pertencer ao companheiro sobrevivente.


Direito à herança

Dependendo da situação familiar, o companheiro pode concorrer na sucessão com outros herdeiros.


Direitos previdenciários

O reconhecimento também pode permitir o acesso a benefícios como:

  • pensão por morte

  • dependência em regimes previdenciários


Como evitar disputas judiciais no futuro

Embora a lei permita reconhecer a união após a morte, o ideal é evitar esse tipo de conflito.

A forma mais segura é formalizar a união ainda em vida.

Isso pode ser feito por meio de:

  • escritura pública de união estável

  • contrato de convivência

  • planejamento sucessório

  • testamento ou organização patrimonial

Essas medidas ajudam a reduzir conflitos familiares e garantem maior segurança jurídica ao casal.


Conclusão


O reconhecimento de união estável após a morte é um tema cada vez mais frequente no Direito de Família.

A informalidade que caracteriza muitas relações afetivas pode se transformar em um grande problema quando surge a necessidade de provar judicialmente a existência da união.

Nessas situações, a ação de reconhecimento de união estável post mortem torna-se o caminho jurídico para garantir direitos patrimoniais e sucessórios.

Esse processo exige provas consistentes de convivência pública, estabilidade e intenção de constituir família.

Ainda assim, a melhor forma de evitar conflitos é a prevenção: formalizar a união estável em vida continua sendo a maneira mais segura de proteger os direitos de ambos os companheiros.

Leonardo Gutierrez Alves Sociedade de Advogados

Av. Paulista, 1471 - cj 511 - Bela Vista, São Paulo - SP, 01311-200, Brasil

contato@gutierrezalves.adv.br

Filial: Av. Tenente Valadim, 20, 1º Andar Sala H, Torres Vedras, Lisboa - Portugal

  • alt.text.label.LinkedIn
  • Youtube
  • alt.text.label.Instagram

©2022 por Leonardo Gutierrez Alves Sociedade de Advogados. 

bottom of page