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O Período de Cliff e os Marcos de Desenvolvimento: Como Proteger o Estúdio Até a Entrega do Vertical Slice

Foto do escritor: Leonardo Gutierrez Alves
Leonardo Gutierrez Alves
28 de ago.
8 min de leitura

Imagine que um estúdio independente acaba de contratar um desenvolvedor sênior de gameplay para integrar a equipe responsável pela criação de um novo jogo de ação. Como o orçamento ainda é limitado, os fundadores optam por oferecer uma remuneração reduzida, complementada por um contrato de vesting que permitirá ao profissional adquirir participação societária ao longo do tempo.


Nos primeiros meses, o entusiasmo é evidente. O desenvolvedor participa das reuniões estratégicas, propõe novas mecânicas e assume funções essenciais para o projeto. Entretanto, após cinco meses de trabalho, ele recebe uma proposta financeiramente mais vantajosa de uma grande desenvolvedora internacional e decide deixar o estúdio.


Período de Cliff


Se não existisse um mecanismo jurídico adequado, esse profissional poderia manter parte da participação societária mesmo sem contribuir para a conclusão do jogo, criando um desequilíbrio entre esforço efetivamente realizado e patrimônio recebido.


Para evitar exatamente esse tipo de situação, o mercado de startups consolidou dois instrumentos extremamente importantes: o período de Cliff e os Marcos de Desenvolvimento (Milestones).


Esses mecanismos permitem que a aquisição da participação societária somente ocorra após a demonstração concreta de comprometimento do colaborador com o projeto, protegendo o patrimônio da empresa, a propriedade intelectual do jogo e os interesses dos investidores. O uso de cliff e vesting tornou-se prática consolidada em startups justamente por alinhar incentivos, preservar o cap table e reduzir riscos decorrentes da saída precoce de profissionais estratégicos.


O que é o período de Cliff?

O Cliff pode ser definido como um período inicial de carência durante o qual o beneficiário do contrato de vesting ainda não adquire qualquer direito à participação societária.

Na prática, funciona como um período de avaliação recíproca.


Durante esse intervalo, tanto a empresa quanto o colaborador verificam se existe alinhamento técnico, cultural e estratégico suficiente para manter uma relação de longo prazo.


Embora o prazo possa variar conforme a negociação entre as partes, o padrão adotado pelo mercado internacional e amplamente replicado no Brasil é de 12 meses, existindo, contudo, estruturas que utilizam períodos entre seis e doze meses, especialmente em startups de tecnologia e estúdios independentes de games.


Caso o colaborador deixe a empresa antes do encerramento do Cliff, nenhum percentual da participação prometida será consolidado.


Da mesma forma, caso a empresa decida encerrar legitimamente a relação contratual durante esse período, normalmente não haverá obrigação de conceder participação societária, pois o requisito temporal ainda não terá sido cumprido.


O Cliff como ferramenta de gestão de riscos

Sob a perspectiva empresarial, o Cliff possui uma função que vai muito além da retenção de talentos.

Ele representa uma ferramenta de mitigação de riscos.


Nos primeiros meses de qualquer projeto inovador ainda existem inúmeras incertezas:

  • adaptação do profissional à cultura organizacional;

  • qualidade técnica das entregas;

  • capacidade de trabalhar em equipe;

  • comprometimento com prazos;

  • aderência aos objetivos estratégicos do estúdio.


Sem um período de carência, a empresa poderia conceder participação societária definitiva a alguém cuja contribuição efetiva tenha sido mínima.


O Cliff evita justamente esse problema, assegurando que somente colaboradores verdadeiramente comprometidos passem a integrar o quadro societário.


O que são os Marcos de Desenvolvimento (Milestones)?

Superado o período de Cliff, a aquisição da participação societária normalmente deixa de depender exclusivamente do tempo de permanência.


Nos projetos de desenvolvimento de jogos eletrônicos, é comum que o vesting também esteja vinculado ao cumprimento de Marcos de Desenvolvimento (Milestones).

Esses marcos representam entregas objetivamente verificáveis durante a evolução do projeto.

Entre os principais exemplos estão:

  • conclusão do Game Design Document (GDD);

  • entrega do protótipo funcional;

  • desenvolvimento da versão Alpha;

  • disponibilização da versão Beta;

  • implementação de sistemas multiplayer;

  • integração da inteligência artificial;

  • certificação para consoles;

  • lançamento oficial (Gold Master);

  • cumprimento de metas de monetização após o lançamento.


Ao atrelar a aquisição do equity à entrega desses marcos, o contrato garante que a participação societária reflita não apenas o tempo de permanência, mas também a efetiva geração de valor para a empresa. Essa modalidade de vesting baseada em metas é amplamente utilizada em startups cujo sucesso depende da execução técnica do projeto.


O Vertical Slice: o marco mais relevante para investidores

Entre todos os milestones existentes na indústria de games, poucos possuem tanta relevância quanto o Vertical Slice.


Diferentemente de um simples protótipo, o Vertical Slice representa uma pequena porção do jogo construída com qualidade próxima à versão final.

Nele, encontram-se reunidos os principais elementos que demonstram a identidade do projeto:

  • mecânicas de gameplay;

  • direção artística;

  • interface;

  • trilha sonora;

  • efeitos visuais;

  • desempenho técnico;

  • experiência do usuário.


Seu objetivo não é demonstrar a extensão do conteúdo, mas provar que a visão criativa do jogo é tecnicamente viável.


É justamente esse material que costuma ser apresentado a publishers, investidores e potenciais parceiros comerciais.


Quando um estúdio alcança um Vertical Slice consistente, reduz significativamente a percepção de risco do empreendimento, aumentando suas chances de captação de investimentos e elevando o valor econômico dos ativos intangíveis desenvolvidos até aquele momento.


O Vertical Slice e a valorização da propriedade intelectual

Embora o código-fonte continue em desenvolvimento, o Vertical Slice já evidencia a existência de diversos ativos protegidos pelo ordenamento jurídico.


Nesse estágio normalmente já existem:

  • softwares desenvolvidos;

  • personagens originais;

  • roteiros;

  • trilhas sonoras;

  • modelos tridimensionais;

  • interfaces gráficas;

  • elementos audiovisuais.


Esses ativos passam a compor parte relevante do patrimônio intelectual da empresa.


Por isso, muitos contratos de vesting condicionam a consolidação de parcelas significativas do equity justamente à entrega e aprovação desse marco técnico.


Além disso, recomenda-se que todo o conteúdo produzido durante esse período esteja acompanhado de instrumentos de cessão de direitos patrimoniais, cláusulas de confidencialidade (NDA) e disposições específicas sobre propriedade intelectual, reduzindo riscos de disputas futuras.


A importância de metas objetivas

Um dos maiores erros encontrados na elaboração de contratos de vesting consiste na utilização de metas excessivamente subjetivas.


Expressões como:

  • "bom desempenho";

  • "participação satisfatória";

  • "qualidade adequada";

  • "colaboração eficiente";

podem gerar interpretações divergentes e aumentar significativamente o risco de litígios.


Sob a perspectiva jurídica, os milestones devem ser construídos com critérios objetivos, verificáveis e documentáveis.


No desenvolvimento de jogos eletrônicos, essa objetividade pode ser comprovada por diversos meios:

  • registros de commits em repositórios Git;

  • relatórios de gerenciamento de projetos;

  • atas de reuniões;

  • cronogramas aprovados;

  • entregas homologadas;

  • sistemas de controle de versões;

  • documentação técnica;

  • indicadores de desempenho previamente definidos.


Quanto maior a objetividade das metas, menor a possibilidade de discussões futuras acerca do cumprimento das condições contratuais.


Cliff, propriedade intelectual e investidores

Investidores profissionais raramente analisam apenas a qualidade do jogo.

Eles também examinam cuidadosamente a forma como a empresa administra seus ativos humanos e intelectuais.


Contratos contendo Cliff, milestones claramente definidos e instrumentos adequados de cessão de propriedade intelectual demonstram maturidade na governança corporativa.


Esse conjunto reduz riscos de conflitos societários, evita a formação de "sócios inativos", protege o cap table e transmite maior segurança durante processos de due diligence.


Não por acaso, estruturas de vesting com Cliff e marcos objetivos são frequentemente recomendadas — e, em muitos casos, exigidas — em operações de investimento envolvendo startups de tecnologia.


Conclusão

O desenvolvimento de um jogo eletrônico é um processo longo, complexo e altamente dependente da colaboração entre profissionais especializados. Nesse contexto, distribuir participação societária sem critérios objetivos pode comprometer a estabilidade da empresa, dificultar futuras captações de investimento e gerar disputas societárias desnecessárias.


O período de Cliff e os Marcos de Desenvolvimento surgem como mecanismos essenciais para alinhar expectativas, recompensar a contribuição efetiva e proteger o patrimônio do estúdio.


Quando associados a entregas estratégicas, como o Vertical Slice, esses instrumentos permitem que a aquisição de participação societária acompanhe a criação de valor real para o empreendimento, fortalecendo a governança corporativa, preservando a propriedade intelectual e aumentando a confiança de publishers, investidores e parceiros comerciais.


Contudo, para que produzam os efeitos esperados, essas cláusulas devem ser elaboradas com precisão técnica, metas objetivas e adequada integração com os demais instrumentos societários e contratuais da empresa, garantindo segurança jurídica tanto para os fundadores quanto para os colaboradores.


Perguntas e Respostas Frequentes (FAQ)

  1. O que é o período de Cliff no contrato de vesting? 

    Uma carência inicial do contrato em que não se ganha nenhuma participação societária.


  2. Quanto tempo dura tipicamente o cliff no contrato de vesting? 

    O padrão do mercado é de 6 a 12 meses iniciais.


  3. Qual é sua finalidade do cliff no contrato de vesting? 

    Avaliar a adaptação, comprometimento e o "fit" do desenvolvedor com a cultura da startup.


  4. E se a relação acabar durante o Cliff? 

    O colaborador deixa a empresa sem direito a nenhuma cota do capital social.


  5. A empresa deve pagar multas societárias se demitir no Cliff? 

    Geralmente não, pois o direito à opção de compra não foi alcançado.


  6. A aquisição acontece toda de uma vez após o Cliff? 

    Não, após a carência, o vesting passa a ser gradual e progressivo.


  7. O que são Marcos de Desenvolvimento? 

    Metas técnicas ou criativas que ativam os gatilhos do vesting (ex: Alpha, Beta).


  8. O que é um Vertical Slice? 

    Um "corte vertical" do jogo: protótipo onde toda a estética e mecânicas estão finalizados.


  9. Por que atrelar o vesting ao Vertical Slice? 

    É o ponto onde o projeto prova que tem valor econômico real para o estúdio.


  10. Como o Vertical Slice afeta a empresa no contrato de vesting? 

    Ele aumenta drasticamente o valuation do patrimônio intangível.


  11. Como a perícia o avalia em uma disputa de saída no contrato de vesting? 

    Utiliza a fórmula matemática de Fluxo de Caixa Descontado considerando as receitas e riscos do protótipo.


  12. Metas são apenas de tempo no contrato de vesting? 

    Não. Podem focar no desempenho e na complexidade de entrega do jogo.


  13. Metas podem ser subjetivas no contrato de vesting? 

    Não. Exige-se que indicadores e Planos de Desempenho (PDI) sejam precisos.


  14. Há risco de o estúdio atrasar a meta de propósito no contrato de vesting?

     Contratos bem feitos preveem indenização caso a culpa do atraso seja da empresa.


  15. O código gerado durante o Cliff pertence a quem? 

    À empresa, mediante as regras de cessão de direitos (Invention Assignment).


  16. O Marco Legal dos Games menciona protótipos? 

    Abrange a obra audiovisual desde a fase de software incipiente até final.


  17. O INPI protege o Vertical Slice? 

    Sim, o código hash desse estágio pode ser depositado garantindo anterioridade.


  18. A Publisher pode forçar Cliffs? 

    Pode exigir isso em acordos de investimento para blindar o próprio capital investido.


  19. Cliff com demissão sem justa causa? 

    O contrato cível encerra normalmente, mas se camuflar fraude trabalhista, pode ter disputas.


  20. Um Diretor de Arte (sócio) pode ter Cliff? 

    Sim, para evitar que um criativo fundamental trave os direitos se sair da fundação.


  21. Como formalizar o fim do Cliff? 

    Com aditivos contratuais ou o acionamento dos termos de exercício de opções.


  22. Os Marcos incluem o período pós-lançamento? 

    Sim, o vesting pode se estender ao cumprimento de metas de monetização.


  23. Lock-up e Cliff são sinônimos? 

    Não. Cliff impede o ganho. Lock-up impede a venda do que já foi ganho.


  24. Aceleração impacta o Vertical Slice? 

    Se o estúdio for vendido antes da conclusão, a aceleração libera o ganho sem aguardar a meta.


  25. O desenvolvedor pode se recusar ao Cliff? 

    Ele é parte da negociação e pode pedir garantias e prazos de proteção.


  26. Como um colaborador provará que entregou o Marco? 

    Todo o histórico, como commits de código no Git, atua como prova legal.


  27. O desenvolvedor mantém direitos morais no protótipo? 

    Direito de paternidade é irrenunciável, mesmo se ele sair da empresa no Cliff.


  28. E se o colaborador sair pouco antes de terminar o Cliff no contrato de vesting? 

    Salvo má-fé deliberada da empresa, não detém direitos a integralizar ações societárias.


  29. É necessário documentar a entrega técnica em de vesting? 

    Sim, deve-se listar detalhadamente ativos, sons, modelagens 3D e métricas algorítmicas.


  30. O Cliff atrapalha recrutamento de seniores? 

    Pode gerar atritos caso eles queiram segurança imediata. Nesses casos se negocia vesting reverso.


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